Vamos lá... Vou contar um pouco como foi essa minha experiência.. Têm certas coisas que a gente nunca imagina que vai ter que passar na vida... mas dessa vez, minha intuiçào me deixava inquieta... Mas eu não sabia o motivo. Fui obrigada a amadurecer na marra... ferramentas estranhas que Deus usa pra nos fazer crescer, né? Mas, sem dúvida, Ele conseguiu seu objetivo...
Estive assim meio fora do ar nesse período.... isso quer dizer desde o dia 8 de julho de 2002, quando descobri a doença do Gui... foi como uma bomba nuclear direto na minha cabeça... A partir de então, foram promessas, orações, meditação pra entender um pouco disso tudo...acho que em certo ponto, apesar de tudo, deram certo...
Desde o começo, quando descobrimos, eu sabia que era muito grave, que as chances eram poucas, mas existiam, e foi nisso que me agarrei. Fomos indicados para um dos maiores especialistas na área de cirurgia cardíaca pediátrica , Dr. Marcelo Jatene, filho do Adib Jatene, um amor de pessoa... nos chamou para conversar.. desenhou, explicou... disse que alguns médicos, principalmente fora do Brasil, dão como opção não fazer nada, simplesmente esperar que o bebê morra, o que realmente acontece se a cirurgia não é feita. Mas ele disse que não concordava com isso, que enquanto houvesse uma chance sequer, ela teria que ser aproveitada. Eu também penso assim. Jamais conseguiria ver meu filho morrer e ficar de braços cruzados. A partir de então já não tínhamos mais certeza de nada... só pedir que Deus fizesse o melhor para todos...
No começo, eu não queria acreditar que fosse algo tão grave assim, pois o Gui estava, pelo ultrassom, maior que a média, estava acima do peso... tudo perfeito... nem meu obstetra conseguia acreditar.... Os médicos não sabem a razão disso acontecer... causa genética não é... eu fiz um exame chamado amniocentese pra ver... toda a parte genética estava normal...até no dia que ele nasceu, ninguém naquela sala de parto estava acreditando que ele tivesse algum problema, ele nasceu imenso, rosado, choro forte... foi chamada uma equipe do Incor pra examiná-lo... ali ninguém botava fé que ele estivesse tão mal.... mas estava... e foi piorando muito rápido.... ele nasceu na quarta e a cirurgia foi marcada pra sexta. Na própria quarta-feira ele foi transferido para o Incor. Não pude vê-lo na quinta feira.... como ele ia ser operado na sexta e ninguém garantia nada, meu médico me deu alta na quinta mesmo e a chefe da UTI do Incor me deu uma autorização pra entrar lá e vê-lo antes da cirurgia... o horário seria das 6 às 7 da manhã... consegui ficar de 5:50 às 8 horas com ele... cantando.... beijando... fazendo carinho... e dizendo que eu o amo pra sempre... mas aí ele teve que ir pra sala de cirurgia... fui com ele até a porta... que aperto no peito... que horrível... aí está o sentido literal de "deixar nas mãos de Deus"... vc simplesmente tem que entregar.... não pode fazer absolutamente mais nada... sensação de impotência...
Essa tortura levou 8 horas... só que daí pra frente as coisas só pioraram... hemorragias.... o coração não respondia.... colocaram um marcapasso... e nada.... ficou tendo aquela circulaçào extracorporal todo o tempo... o que levava ao risco de coagulações ... fui vê-lo todos os dias... mesmo com dor... mesmo com um vasinho rompido no corte... não podia deixar de estar ali ao lado dele.... mas estava torturante demais vê-lo naquele estado... sabe quando chega ao ponto que você já não sabe mais o que pedir a Deus? Se pra deixá-lo vivo ou pra terminar com aquela dor? Eu não sabia... falei que Ele fizesse o que fosse melhor para o Gui... mesmo que eu sofresse.... Domingo o Gui estava acordado... me olhou por uma hora... nunca vou esquecer... ele olhou bem pra mim com aqueles olhões azuis como se quisesse me dizer algo... pensando bem, ele disse... só eu sei disso... só eu vou entender o que foi dito... pra sempre...
Lembranças....aquele cheirinho de nenê... a pelezinha macia... lindo... muito lindo... tão lindo que Deus pediu de volta.... e eu dei... porque Ele pode cuidar melhor do que eu .... do que qualquer um de nós....
No dia 28 de outubro, meu anjinho voltou pro céu... e a vida aqui ficou mais vazia... esquisita... parece que o tempo está congelado... eu guardei as roupinhas... não desmontei o berço... está tudo intacto... como se a qualquer minuto ele fosse estar ali... usando tudo que é seu e que foi montado com tanto amor e carinho... já chorei muito... mas não por lamentação... o que dói mesmo é a saudade... como dói.... fizemos de tudo... mas não era pra ser... não dessa vez... ele veio, fez o que tinha que fazer e voltou... quem sabe retorne, torço pra isso, pois meu amor é eterno e infinito.... assim como a saudade...
Estou melhor a cada dia... o tombo é grande, mas a força é maior ainda... as coisas adquiriram outra dimensão.... o que antes eram problemas, hoje não são nada....
Pedro... eu te amo... Obrigada por ser sempre esse pai tão lindo, carinhoso e presente... É por isso e muito mais que não paro de querer ter filhos com você... Cada um que vem, uma nova bênção para nós...
Que Deus permita que eu seja abençoada novamente... serão muito bem vindos todos os filhos que Ele permitir que eu tenha...
Que assim seja!
"Dorme, meu bem...
Deus vai te cuidar...
E os anjinhos vão te despertar...
Hoje, meu bem, tens um outro lar
Onde a maldade bem longe vai ficar...
Teu coração vai desabrochar...
Vive tranqüilo em teu novo lar...
E o meu amor nunca irá mudar...
Quem sabe, um dia, eu volte a te encontrar...
Dorme, meu bem...
Dorme, meu bem...
Ninguém vai te assustar..."
(Acalanto - Thiago Fragoso)
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